FARGO



 Mais do que partir de um ponto fixo, ou ideia de início, meio e fim nos interessou a movência, para que aquilo que se acreditava ser ponto e faísca se transmutasse, sem sequencialidade, em circularidade pluripotente, pluriciente e pluripresente. Sabíamos que essa andança havia se iniciado antes de nós, assim como, intuímos que algo se daria em continuidade, assim como nos ensinou Nêgo Bispo : “começo, meio e começo...” 

Mesmo porque, nesses recomeços de mundos, aprendemos também que a melhor maneira de guardar o peixe continuaria sendo nas águas, ainda que algumas de nós já havíamos adquirido escamas, e que o que se cultivava se distribuía entre a vizinhança pelos túneis e ductos subterrâneos, agora que nós já estávamos habituadas a respirar debaixo da terra, onde todas se beneficiariam das intensidades, temperaturas e sabores ali partilhados, assim como, da múltiplas e diversas gestualidades, processos cognitivos e espirituais. 

Encaramos na FARGO a possibilidade e também as impossibilidades de dar materialidades e ritualizar a partir de outras formas-pensamento vinculadas a economias de valores para nós mais significativas, performando um discurso na direção da biointeração, imaginando equações de valores para não pagar o preço, transitando no em comum aos quilombos, aos terreiros das religiões de matriz africana e à capoeira, assumindo a imprevisibilidade. 

Nos interessou recrudescer a diversidade de territorialidades, os segredos e magias das cosmogonias ligada aos saberes tradicionais e dos reais donos da terra, nos deixando incidir pela produção artística contemporânea de memória ancestral, nos deixando lembrar do metabolismo das raízes em nós, ao trajeto que leva a seiva ao sistema circulatório, e da alimentação e propósito de manutenção da vida, aquilo que não se encerrou nas árvores do esquecimento nem com o fogo nesses nada recentes ajuntamentos futuros, provocando encontros, numa dinâmica esférica, articulada ao ethos da memória, da ancestralidade, ligado ao paradigma quilombista, que coloca o comportamento do indivíduo em constante movimento, voltado para viver a experiência da liberdade. 

Leituras: Colonização e Quilombos, modos e significação de Antônio Bispo dos Santos. 

Dívida Impagável de Denise Ferreira da Silva. 

Quilombismo de Abdias Nascimento. 

Uma história feita por mãos negras de Beatriz Nascimento. 

Documentário Orí, Beatriz Nascimento, Raquel Gerber (1989)

A distinção, Pierre Bordieu (1979)

A desumanização da arte, Ortega y Gasset (1925)




 

 

 

 

"Eles combinaram de apagar nossa história, mas nós combinamos de não esquecer!"

 

 

Mirna Anaquiri

Identidade é resistência, 2022

Foto-Instalação


Inspirada por Conceição Evaristo, a obra Identidade é resistente, propõe uma retomada de um sobrenome indígena.

Anaquiri, sobrenome da minha bisavó Genesia, que durante anos busquei ter na minha certidão de nascimento. 

Essa obra fala da luta dos povos indígenas no Brasil, onde as retomadas têm sido um posicionamento pelas nossas vidas. Sejam elas nos nossos nomes, terras, diretos e autocuidado. 

As imagens dos documentos de registros de nascimentos e Registro de Nascimento Indígena compõe a poética de luta e conquista de muitas pessoas indígenas que têm cobrado essa reparação social nos nomes, histórias, línguas e culturas negadas. 

O Brasil inteiro é terra indígena! 

É necessário e urgente que reconheça a verdadeira histórias desse país, para que cesse a colonização. Pela vida dos povos originários desse país.

 

Mirna Kambeba Omágua Yetê Anaquiri, pertence aos povos originários do Brasil.

É uma artista em construção, uma aprendiz das águas, das artes e da vida.

Mirna é integrante da Coletiva de Mulheres Indígenas e Negras Quilombolas, é artista visual, performer e arte educadora.

É ativista do movimento indígena, que luta por uma educação antirracista.

 

 

Iago Araujo

Silêncio Compartilhado, 2017 – 2021.

Fotografias


Silencio Compartilhado é um convite para um açaí, comida marcante na vida nortista brasileira. É um momento de parar e confiar, se alimentando numa mesa que conecta os corpos de quem deseja compartilhar esse momento. Os encontros que se desdobram em foto-performances que pretendem reconhecer a sutilezas do ritual de comer juntos. Ao trazer o açaí em natura (sem açúcar, frutas ou outros elementos industriais) raramente encontrado fora da região norte, pretendo tecer uma afirmativa anti-colonial, que valoriza a riqueza e poder da planta enquanto elemento de reconexão com a terra, a natureza e as memórias ancestrais brasileiras. Tão raros quanto o açaí natural são os momentos de silêncio e calma para comer, em nossos cotidianos acelerados onde nem sabemos da onde vem a comida que acessamos. A obra é sobre silêncios gritantes, encontros marcantes e entender que alimentados são sagrados. É preciso comer a terra, para voltar a terra, para aterrar e relembrar que somos parte da natureza.

Iago Araújo, é artista, educador e produtor cultural. Licenciado em Artes Cênicas pela UFG. Vive e Trabalha entre Marabá-PA, Goiânia-GO e Salvador-BA. Seus trabalhos são rios de memórias que desaguam num fluxo entre cinema, dança, circo e artes visuais. Negritudes, afetividades, questões ambientais e culturas populares brasileiras são temas importantes em suas pesquisas.

 

Matheus Martins

Fominha, 2020-2021

Objeto


 Matheus Martins 

Aquilo que nos benze, 2017

Objeto


Nessa ocasião explorei a apropriação de materiais e/ou temas que fazem parte do meu universo particular, mas ao mesmo tempo do universo público. Minhas reminiscências e experiências político-econômicas e geográficas atuais foram em grande parte o meu estímulo criativo.

Matheus Martins Aquilo que nos benze, 2017 Dimensões variáveis Bordado sobre camisa da seleção brasileira de futebol

O trabalho parte de uma ideia de apropriação, onde eu me aproprio de uma camisa da seleção brasileira que vem sendo um símbolo para todo o país seja ele bem ou mal visto. Inicio construindo uma narrativa e já dando indícios pela busca do diálogo sobre assuntos não estritamente estéticos. Usando o suporte da mídia, busco relatar à construção etnográfica atual desse objeto e a mistificação do mesmo por grupos sociopolíticos e religiosos. A partir daí passo a chamar de “símbolo sagrado” fazendo uma relação entre o símbolo cultural e a palavra sagrado ligada a religião. Na ação do bordado represento o símbolo de um elemento parte de minha memória pessoal que tende a estampar um espaço específico. Após, velo o brasão da camisa e a marca criando uma conversa sobre censura e consumo. A camisa bordada se torna uma vontade de falar sobre nossas particularidades como nação, nossas diferenças e referencias que devem ser respeitadas.

Matheus Martins (1995), nascido e criado em Goiânia, é artista visual e licenciado em Artes Visuais pela Faculdade de Artes Visuais da UFG. Seu trabalho acontece entre diferentes mídias. Acredita que o fazer manual seja parte importante do seu processo e tem como principais linguagens, a pintura, o bordado e a criação de objetos. Quase sempre usa de palavra e imagem e bebe das fontes da cultura popular e da apropriação. Se considera um contador de histórias, que costumam expor temas como reminiscência, gentrificação/urbanização, experiencias afetivas pessoais e ideias de micro e macropolítica

DeiçoXavier
Vídeos-performance: (
Reflexo/Modos de ofuscar os olhos/Redemoinho)


Davidson José Martins Xavier tem procurado por uma dança ínfima, encontrando neste caminho uma narração de si através de uma dança que surge de uma pesquisa memorial cinestésica.

Davidson José Martins XavierDavidson é nortemineiro, e de vez em quando esquece as palavras e as substitui por palavras criadas em um idioma inventado próprio. Como artista das artes cênicas, artista-educador e instrutor de movimento atua desde 2005, com DRT: 28.220 e tudo (rs). Mas desde 1999 já atuava e dançava como ama-dor. Atualmente é mestrando no Programa de Pós Graduação em Artes da Cena PPGAC/UFG, bolsista FAPEG. Nesta pesquisa corporea pretende ser recolhido pelo movimento, procurando sensorialidades que se apoiem em escombros e escuros da memória e imaginário geraizeiro. 

 

Debora Taiane

Semaninha

Pintura sobre panos de prato


O trabalho Semaninha (nome dado aos jogos de 7 panos de prato que são vendidos ainda hoje) busca subverter a noção do feminino, do lar e da cozinha, acrescentando o tema da masturbação feminina a esta ferramenta do trabalho doméstico. As frutas, além de evocarem a sexualidade, o erotismo e a própria vagina, também referenciam a natureza morta, tida pela história da arte como um gênero menor e considerado por muitos um tema feminino, sendo ainda mais menosprezado quando ligado ao artesanato doméstico, da pintura de panos de prato e forros de mesa.

Debora Taiane é formada em Artes Visuais - Bacharelado (FAV/UFG) e mestranda em Arte e Cultura Visual (PPGACV/UFG). Em seu trabalho, utiliza diversas técnicas como pintura, fotografia e performance para discutir gênero, corpo e sexualidade, tratando principalmente a relação da mulher com a casa através da subversão do conceito de “prendada”.

Perse Verus

Ludja,2021.

Guache profissional e pva sobre papel A3.



Perse Verus

Sem título,2022.

Aquarela e guache profissional sobre papel A3.


Perse trabalha com experimentações e experiências sensoriais e extra sensoriais compondo expressões diversas.

Não pertencimento como um bloqueio, uma trava a ser aberta novamente, uma história mal contada. Perse trabalha com experimentações e experiências sensoriais e extra sensoriais compondo expressões diversas.


Ritchelly Oliveira

Pessoa-pessoa, 2017

Carvão e grafite sobre papel algodão

“Pessoa-pessoa” convoca a pensarmos a memória através do afetivo, de que a imagem por si só já traz um grande substitutivo da palavra, de que ela mesma ajuda na elaboração de representações imaginárias do sujeito, em um mundo em que a construção desse sujeito se faz por meio dos - ou não - afetos.

Ritchelly Oliveira, 28 anos, natural do Pará, residente em Goiânia, Inicia seu trabalho em 2012 buscando e construindo uma relação da figura humana com o afetivo. Memórias dialogadas através do corpo e de seu meio. Utilizando do carvão como material e marca central nas suas obras, o artista já teve suas obras exposta em Nova York, Berlim, Londres e na ArtBasel Miami em 2016.


Âmbar

Dose 1, série "Dismorfina", 2021.

Tinta de tecido em tela. 


Âmbar

Eclosão, série "Dismorfina", 2021.

Tintas mistas
e cola.

 Âmbar

Soro, série "Dismorfina", 2021.

Acrílica e
supercopa em tela.


 

Em um mundo branco..., 2020.

Giz pastel a óleo em papel Canson 300g/m

A4


 

Corporações, 2020.

Tinta de tecido em papel.

A4


Esta série foi a primeira que eu planejei; que a ideia veio anterior a produção. Também foi a primeira vez que usei como tema/propulsor a disforia de gênero que vivencio.  Morfina é um analgésico potente para dores. "Dismorfina" é sobre abandonar  a dormência, /dis/fazer a dor, postular etapas do processo que me levaram à iniciar o uso de hormônios, imagetizar a transmutação, des/fazendo à figura em formas, cor e textura.


Âmbar, codinome Pictórica, @pictoricanebulosa é artista, tem 26 anos, vem de Guapó (GO) e mora em Goiânia. Experimentadora de linguagens diversas, com foco na performance como propulsora de sua produção. Investiga o corpo, da carne à mente, seus atravessamentos sociais, possibilidades de transfiguração e transformações decoloniais das narrativas de gênero, raça, padrões de beleza. Se relaciona à espiritualidade yorubá-brasileira, como posicionamento político e expansão da concepção de existência neste planeta.


Sarah Malákia

Sem título, 2021 

Pinturas sobre tela 


Vivências afro brasileiras e periféricas, visando diversidade cultural de expressão das ruas e das cidades. Trabalhos feitos em tecido, com costuras e adornos minimalistas.


A artista Visual, tatuadora e trancista Sarah Christina, inicia desde muito cedo sua jornada com a arte. Participou de exposições públicas na cidade, e também em Ceilândia-DF, com enfoque a pessoas negras periféricas. Alguns anos depois de forma didata começou a exercer a tatuagem e hoje em dia tem seu próprio negócio de Tattoo Home Care (tatuagem á domicilio). Também é trancista, visando a cultura afro brasileira.

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