ANA LÍDIA - Hospitalidade
ANA LÍDIA - Hospitalidade - RUMOS
Roca-de-ardis 1
Acompanhar a produção desta jovem artista é emprestar o olhar a um mundo oferecido em plena confissão. Quando a arte se
utiliza da figuração, torna-se explícita a condição humana,
incluindo desejos e carências,
mas também resistência e afirmação. Três aspectos merecem atenção na obra de Ana Lídia, aqui exposta: o recurso do autorretrato; a
prevalência do desenho; e a
fragilidade dos suportes.
Refiro-me ao autorretrato como assunto recorrente em seu trabalho – embora poucas vezes os títulos façam tal menção –, pois podemos identificar a artista nas figuras
corpulentas e exuberantes que ocupam seus suportes. Telas e papéis funcionam como containers em que o corpo se acomoda, constrangido pelo
espaço ao redor, como que
detido ou aprisionado, ainda que sobrem margens ao redor. São mulheres
explicitas e carnais, em cópula,
apaixonadamente entregues ao ato de amor lésbico. Ou mulheres altivas e desafiadoras. Mulher-pedra, mulher- montanha,
mulher-ilha. Mulher apaixonada, tomando aqui a paixão em seu sentido bíblico, como passos de um sofrimento
encadeado.
Cito o desenho de Ana Lídia
embora, na sua maioria, estes trabalhos sejam pinturas. Mas nelas observo o
fio, o risco, o contorno, traçados pelo pincel fino e determinando desapego pelas tarefas exigentes da
pintura. As telas não recebem preparo que amacie o serviço e parecem ser domesticadas no esforço das mãos, como que reproduzindo um tipo
de relação entre corpos. São gestos de domínio,
submetendo os meios agressivamente. Seus bordados sobre fotografias, não incluídos nesta mostra, replicam esse mesmo trato
agressivo e despachado, impondo pequenos sacrifícios aos suportes, com a linha funcionando como
sutura entre partes reunidas, corpo construído. Aqui vemos os traços realçando volumes, como uma teia, enovelada sobre as carnes. Um casulo de pupa
amadurecendo, faminto.
A fragilidade dos suportes parece um imperativo, sugerindo um corpo mortal,
fracionado, às vezes levíssimo, como finas folhas de papéis sobrepostos, ou agressivos, como o cartão impresso das embalagens de
medicação. As bordas irregulares cortadas por facas gráficas, as dobras e os fundos coloridos, compõem
uma noção apurada da pintura, reduzindo o serviço ao mínimo. Alardeiam dependência química e
instabilidade emocional, confessando- se livremente, sem pudor. Trata-se de uma
produção honesta, reduzida em seus formatos singelos, mas
também gloriosa, embalando um retrato de vida.
Faço aqui um pequeno relato, para me reportar a uma condição que nos é comum. Dias antes do advento pandêmico, que nos confinaria em longo isolamento social, acompanhei em frente
de casa uma cena que permanece insistente na memória. Um largo jardim nos separa da avenida W3,
bordeado por uma estreita calçada à beira do asfalto, por onde circulam moradores das quadras e estudantes
caminhando em direção ao ponto de ônibus.
1 Tomo emprestado o termo de Safo, poetisa clássica de Mitilene, na Ilha de Lesbos, séc. VI a V a.C., conforme citado no verso 2 do canto 1, (ou fragmento 168)
publicado pela editora 34, na exímia tradução de Guilherme
Gontijo Flores.
Um homem negro, morador de rua, chegou ao local e acomodou seu mundo junto às moitas, à beira da calçada. Algumas caixas de papelão serviriam de
assoalho para ele organizar a vida carregada em sacos plásticos. Ato contínuo despiu-se, dobrou suas roupas sobre os
chinelos e começou sua
performance de vida. A cada pequeno grupo que casualmente se aproximava
indefeso, ele se erguia por detrás da moita, altíssimo, nu
em pelo, a gritar sua palavra de ordem. Os jovens passantes se assustavam,
desviavam os olhos, alguns gritavam enquanto os ônibus seguiam veloz rente à cena esdrúxula, aquele homem criando uma confusão que
atravessaria nossa tarde, repetindo-se inúmeras vezes. Minha vizinha quis chamar a polícia, alguém sugeriu o Corpo de Bombeiros, algo precisava ser feito. O dia passou, a
cena durou até tarde da noite, o homem nu foi castigado
pela chuva, o incômodo se
transformou em preocupação, ninguém sabia ao certo o que fazer. Ele gritava
uma única e mesma palavra e
ninguém ali parecia ouvir ou querer entendê-lo. – Olha! Olha... Era isso, só isso, que ele gritava, pedindo-nos atenção. No
entanto, embora todos pudessem ouvi-lo, ninguém parecia enxergar de verdade aquele homem ou entender sua palavra simples
e direta. Ninguém o olhava verdadeiramente. Ele estava só
entre tantas pessoas. Creio que
todos nós somos assim, de
alguma maneira. Assim como ele, como eu ou você, também a artista alardeia sua
vida e tenta gritar em voz alta. Somos iguais, queremos ter voz, clamamos com
nossos corpos e aguardamos que nos entendam a mão.
RALPH GEHRE
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